Tempo, nosso precioso tempo

Tempo. Escassez que reflete na ruína das conexões. Tão precioso e excessivamente raro. Um tesouro que a vida nos oferece e que jamais retorna para vivermos o que deixamos de viver.
Deixa em evidência e totalmente descoberta as nossas conexões rasas e profundas.
O peso do tempo passado atropela o tempo presente, que vive uma urgência que sequer conseguimos entender ou explicar. A ênfase ao tempo cronológico, se apega aos incontáveis segundos, minutos, horas que o tic tac do relógio não nos deixa esquecer.
Perdemos os abraços demorados, as conversas prolongadas, os cafés compartilhados, os sonhos idealizados, os olhos entrelaçados. Deixamos para um amanhã que sequer sabemos se teremos, com a desculpa da falta de tempo que, supostamente, acreditamos que temos o dom de controlá-lo de forma absoluta.
Não, não somos os donos do tempo. Longe disso. Nunca seremos. O deixamos esquecido e o substituímos por futilidades que nos pegam no meio do caminho. Também não priorizamos pontos significativos. Passamos a viver pela metade.
Rolar pelo feed infinito de uma rede social, dar atenção à vida do outro, ter medo de uma violência que não sabemos se chegará perto ou não, ficar preso em um trânsito que embola ao sair e chegar. São muitas distrações e contingências que dispersam aquilo que é o grande ponto principal: o tempo presente, o hoje, o aqui e agora.
Como já dizia Caetano Veloso nos lindos versos da música Oração ao tempo: “Tempo, tempo, tempo, tempo. Quando o tempo for propício. Tempo, tempo, tempo, tempo.”.
Mas quando será esse tempo oportuno? Inúmeras vezes deixamos para um depois, perto ou longe, pois o momento não é o melhor para fazermos isso ou aquilo. O cronômetro continua correndo e permanecemos fazendo escolhas, sem pensar na areia que vai caindo, pouco a pouco, como acontece em uma poderosa ampulheta.
Olhar nos olhos, acolher sem vigiar o relógio, abrir a escuta sem pressa, pausar para cuidar de si mesmo, respirar com calma, brincar com os filhos, netos, sobrinhos, amigos, animais de estimação. Perceber toda beleza daquilo que está ao nosso redor com paciência e ternura é transformador.
O tempo não volta, por mais que desejamos o retorno com todas as forças e afinco. Basta apreciarmos nós mesmos para entender.
Ele é um verdadeiro e inestimável presente.
⚠️Texto escrito para minha coluna Conversas de Dentro, no jornal A Voz da Serra.
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